Talvez a
comoção que sucedeu o trágico fim da
onça-pintada Juma desperte a sociedade para os
conflitos socioambientais brasileiros. Trabalhar as dimensões humanas da
conservação e manejo de animais silvestres é mais do que necessário, é urgente.
Todo dia
morre uma onça-pintada -- pior, várias -- em razão da ignorância de pessoas e
comunidades que vivem próximas a esses grandes predadores sobre sua biologia,
comportamento; sobre como é possível reduzir os conflitos diários decorrentes
dessa convivência. Infelizmente, não adianta apontarmos nossos dedos, sentados
em nossos sofás urbanos. É fácil julgar se você não vive a realidade dessas
pessoas. Se quisermos uma saída, os maiores aliados serão a educação e o
diálogo.
Todo dia
morre uma onça-pintada em decorrência de pessoas que ainda insistem em abater
esses indivíduos por prazer, por status, para aprisionar sua beleza
singular em um tapete sob o qual jaz o escrúpulo humano. E não me venham com a
história de que faz tempo que esse tipo de esse tipo de criatura não habita
mais a Terra.
Todo dia
morre uma onça-pintada atropelada por excesso de velocidade, por
falta de reconhecimento de governos da necessidade de passagens de fauna nas
estradas para a segurança de pessoas e animais;
Todo dia
morre uma onça-pintada para que seu filhote seja feito de mascote, vendido numa
fronteira do Brasil, principalmente se for melânico, criado por comunidades ribeirinhas
até que se torne um problema para a segurança pública e para os órgãos
ambientais. Há dezenas de grandes felinos em condições inadequadas de cativeiro
precisando de destinação, muitas vezes insalubres, apesar dos esforços daqueles
que se dedicam a melhorar suas condições de vida. Verba e estrutura nunca
chegam.
Todo dia
morre uma onça-pintada quando esta é subtraída da natureza e fica incapacitada
de exercer seu papel biológico. Salvo os programas de cativeiro onde esses
indivíduos são incluídos em planos de manejo sérios, que visam a conservação da
espécie.
Para que
fique claro, cabe a sociedade demandar esclarecimentos e cabe ao poder público
apurar o acidente. Em qualquer esfera e instituição, seja ela pública ou
privada, condutas abusivas precisam ser combatidas, revisadas e corrigidas. Nem
sempre exibição de animais em público será sinônimo de conservação. Mas
acredito que um animal acorrentado e exibido num evento desta magnitude foi um
despropósito para a proteção da onça-pintada no Brasil. Sinto vergonha de que o
mundo tenha presenciado tamanha infelicidade.
Precisamos
nos educar e nos enxergar como sentinelas de nossas próprias riquezas e não
como seus algozes. E me refiro a cada um de nós.
Não é a
primeira vez que nossa fauna tem sua imagem utilizada como símbolo de eventos
desportivos.Fuleco, o tatu-bola, foi mascote da Copa do mundo FIFA
2014. Agora Ginga, aqui representado por Juma, enfrentou um trágico
fim ao “receber” a tocha olímpica das Olimpíadas Rio 2016.
Diariamente usamos, abusamos, subtraímos e depredamos nossa biodiversidade. E
me assombra que eventos de visibilidade internacional como esse, que utilizam a
nossa fauna como símbolo, que vendem sua imagem embutida em pelúcias, chinelos,
camisetas, bonés, chaveiros e toda sorte de souvenires, repassem uma fração
muito pequena equivalente das suas vendas para auxiliar projetos de conservação
de espécies ameaçadas de extinção.
O tiro
desferido contra Juma é a metáfora perfeita do dano que praticamos contra nossa
biodiversidade. E a mudança cabe a todos nós. Espero que hoje encontre a
liberdade merecida no lugar do qual nunca deveria ter saído, Juma!
Apesar do desabafo, espero que todos os projetos sérios de conservação
de onça-pintada de cativeiro e vida livre sejam amplamente divulgados e
apoiados. E que suas equipes sejam reconhecidas. Convido cada um dos envolvidos
a formar uma corrente positiva para divulgar seus trabalhos pela América
Latina, que conte como a onça-pintada transforma a vida de quem se dedica a
salvá-la. Por mais respeito pela onça-pintada!
Extraído de Oeco
Por Mirella Lauria D’Elia